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O brasileiro precisa consumir mais

Publicado em: - 10-11-2006

O pobre brasileiro trabalhador, que durante séculos sonhou com uma renda condizente com suas necessidades e com condições melhores de consumo, vem, aos poucos, realizando seu sonho. Apesar do salário mínimo ainda não garantir sequer o mínimo garantido constitucionalmente, é inegável que a renda da família brasileira aumentou. As mulheres, que antes ficavam em casa, agora trabalham. A economia cresceu e empregou pessoas que antes viviam do cultivo da terra. Para quem não conseguiu emprego, o governo instituiu as diversas modalidades de bolsa-esmola.

Finalmente, o brasileiro está ganhando mais, e isso é bom para o comércio e para a indústria, certo? Infelizmente, errado! Apesar de ganhar mais, o consumo do brasileiro não cresceu proporcionalmente a sua renda. À medida que cresce a renda do brasileiro, crescem com ela as dificuldades financeiras das famílias, fruto de uma incompreensível falta de educação financeira no currículo escolar de nossos filhos. Segundo o IBGE, hoje 30% da renda das famílias que ganham até três salários mínimos são gastos com o pagamento de juros. Uma estupidez, diante das necessidades que deixam de ser atendidas com essa prática. Famílias estão deixando de ter lazer, de se vestir dignamente e até de se alimentar adequadamente para simplesmente pagar juros aos bancos. Uma bizarra disfunção social, que dissemina a pobreza entre uma classe média teoricamente mais rica.

Com os típicos gastos de final de ano, é comum que as famílias assumam diversos compromissos parcelados para o ano seguinte, comprometendo por antecipação o orçamento de diversos meses. Em janeiro e fevereiro, a situação se agrava, com a chegada dos carnês de IPVA e IPTU. O consumo fica concentrado, portanto, em poucos dias do ano, levando o comércio à prática desesperada de instituir incontáveis datas simbólicas para fomentar vendas, como o dia da sogra, dia do cachorro, dia do amigo.

A forma mais saudável de consumir seria distribuindo melhor o consumo ao longo do ano (o consumo, e não o pagamento do consumo de um único mês), aumentando a freqüência do gratificante prazer de gastar e fortalecendo o comércio e seus trabalhadores.

Não há outro meio de corrigir tamanha disfunção a não ser através da disseminação de práticas de educação financeira. Empresas socialmente responsáveis vêm se preocupando em alertar seus colaboradores para as perigosas armadilhas discretamente embutidas nas práticas de vendas a prazo, envio de cartões e propostas de crédito pelo correio, facilidades das financeiras e uso de instrumentos de pagamento como cheques e cartões de crédito. Associações, igrejas e escolas também se movem nesse sentido. Mas ainda há muito mais armadilhas do que informação agindo diariamente nas mentes ingênuas dos trabalhadores.

Conscientizar o consumidor envolve traduzir em números os efeitos dos juros, demonstrando o custo que a antecipação de sonhos traz a seu orçamento. A família brasileira não está em dificuldade por gastar mais do que ganha, mas sim por gastar, sem saber, naquilo que não precisa e depois lamentar a falta de verba para itens relevantes em sua vida.

Não seria preciso fazer muito esforço de poupança para aumentar a riqueza dos brasileiros. Bastaria incentivar aqueles que gastam grande parte de seu salário em juros a ter disciplina e passar a gastar mais com coisas que lhes proporcionam benefícios diretos como lazer, alimentos diferenciados e educação complementar. A atitude de gastar mais tiraria parte do lucro dos bancos e passaria esta parcela dos lucros ao comércio e à indústria, beneficiados por um consumo mais consciente e de qualidade. Essa percepção pode parecer ofensiva ao sucesso da atividade bancária no país, porém, como acionista de bancos que sou, entendo que até mesmo os bancos e seus acionistas terão mais a ganhar no longo prazo com o incentivo à construção de riqueza. Ao invés de lucrar com o amplo spread cobrado sobre pequenos volumes movimentados, o ganho viria na forma de um spread menor sobre uma massa maior de recursos.

Para bancos, proponho uma nova modalidade de responsabilidade social. Ao invés de ajudar os muito pobres enquanto indiretamente criam novos pobres, por que não passar a educar os menos pobres para que os mesmos enriqueçam e passem a contribuir indiretamente para a redução da pobreza no país?

Gustavo Cerbasi é consultor financeiro e professor da Fundação Instituto de Administração, sócio-diretor da Cerbasi & Associados Planejamento Financeiro e autor dos livros Dinheiro – Os segredos de quem tem e Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, ambos pela Editora Gente.

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