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O ‘Custo Brasil’ indireto
Publicado em: - 28-10-2011
Frankfurt, Alemanha, quarta-feira, 17h06. Chego caminhando à estação de trem, onde pegaria a composição para Koenigstein para reencontrar minha famÃlia após compromissos na Feira Internacional do Livro. Ao pesquisar os horários de partidas, lá estava: Koenigstein, 17h19, e outro meia hora depois.
Durante os 13 minutos que me restavam, comprei sem enfrentar filas a versão germânica do nosso café e pão de queijo: um suco gaseificado de maçã e um pretzel quentinho. Saboreei enquanto assistia ao movimento da estação. Ao ver meu trem chegando, liguei para dizer que chegaria em casa às 17h43.
Pontualmente à s 17h19, vi a paisagem começar a correr pela janela, inspirando-me a refletir sobre como a tÃpica precisão alemã criara um momento agradável em meio a um intenso dia de trabalho.
Se não soubesse o horário do trem, ficaria aguardando ansiosamente na plataforma. Certamente, aquele vendedor de pretzels vende mais do que os quiosques de pão de queijo brasileiros, pois a previsibilidade na partida dos trens diminui a ansiedade das pessoas e evita a aglomeração nas plataformas. Mais vendas significa mais dinheiro circulando, mais prosperidade na economia.
A previsibilidade pesa no bolso do trabalhador alemão, que tem mais tempo para consumir? Não, pois ele também usa o tempo livre para produzir mais, seja trabalhando ou estudando. Contando com transporte público eficiente perto de casa, os alemães podem dispor de mais tempo com a famÃlia, ter hábitos mais saudáveis e viver uma vida mais previsÃvel. Resultado: menos estresse, menos ansiedade e menos problemas de saúde. Provavelmente, seus gastos com eventuais quitutes ou revistas enquanto aguardam o trem não pesam no bolso, pois em paÃses como o Brasil esse dinheiro também é gasto, só que com tratamentos de saúde.
Se para ir aos meus compromissos aqui no Brasil pudesse contar com horários precisos de saÃda do transporte, certamente diminuiria os intervalos que faço para compensar problemas de tráfego e tempo de espera. Produziria mais, ganharia mais e também consumiria mais. Meus clientes sabem por que praticamente aboli reuniões em minha agenda. Em São Paulo, para fazer uma reunião de uma hora a dez quilômetros de meu escritório, gasto cerca de três horas do meu dia, contando o deslocamento de ida e volta. Não funciona.
Está aà um aspecto do “custo Brasil” que vai além da óbvia carga tributária, do custo da burocracia, da cara infraestrutura e do custo dos serviços de fura-fila como despachantes e entregas expressas.
Com uma infraestrutura subdimensionada, o trabalhador sai de casa mais cedo, volta mais tarde, descansa menos, produz menos, é mais ansioso, adoece mais e consome menos. Nossa infraestrutura é cara por falta de planejamento, que, por sua vez, decorre de falhas na educação. A educação ineficiente, além de não conseguir capacitar gestores para um planejamento competente, cria um contingente de profissionais subcapacitados que exercem funções que pouco agregam em produtividade e muito pesam no custo.
Ascensoristas, despachantes e motoboys são exemplos de funções perfeitamente dispensáveis em paÃses que contam com elevadores seguros, burocracias adequadamente dimensionadas e trânsito fluido.
O sindicalismo exacerbado, que briga para preservar profissões ultrapassadas, é outro componente de custo. O salário do frentista pesa no preço do combustÃvel, mas existe mesmo que até uma criança seja capaz de abastecer com uma bomba automática. Contamos com cancelas automáticas que reduziriam o custo de estacionamentos, não fosse a imposição de ter funcionários para colocar o tÃquete na máquina por nós. Ao mesmo tempo, faltam técnicos competentes para fazer máquinas que não falham.
Educação limitada sai caro, prejudica nossa capacidade de planejar e torna o Brasil menos competitivo.
Precisamos de menos chefes e mais engenheiros e administradores competentes. Precisamos aprender a planejar, o que nunca soubemos fazer. À nossa nação não falta dinheiro. Falta apenas saber empregá-lo melhor.
Gustavo Cerbasi (www.maisdinheiro.com.br) é consultor financeiro e autor de Casais Inteligentes Enriquecem Juntos (Ed. Gente), Como Organizar sua Vida Financeira (Elsevier Campus) e Mais Tempo, Mais Dinheiro (Thomas Nelson Brasil).
Publicado originalmente no jornal Folha de S.Paulo, em 24/10/2011. Artigo protegido por direitos autorais. Reprodução autorizada desde que citada a fonte www.maisdinheiro.com.br
11 depoimentos!!
Rafael:
Enquanto lia o seu artigo, pensava em comentar exatamente o que você colocou nas duas últimas frases.
Parabéns pelo texto, muito bom.
Lohan Debner:
Ótimo texto Gustavo, os exemplos do final falam por si só: ascensoristas, despachantes, motoboys, frentistas… sindicato!!!
Pablo Garcia de Andrade:
Excelente artigo!
É inacreditável ver o tempo que PERDEM os paulistas no dia a dia.
Em São Paulo, e imagino que em muitos outros lugares do Brasil não deve ser diferente, são disperdiçadas centenas de horas todos os anos simplesmente indo de um lugar ao outro.
É uma pena ver que não é “só tempo” que perdemos, senão que vemos toda a economia sendo afetada.
Um abraço.
Maicon:
Muito bom seu artigo Cerbasi. Você consegue retratar a realidade do Brasil com muita sabedoria. Concordo com tudo o que você disse, sem dúvida este “Custo Brasil”, que as vezes passa despercebido por nós, tem um impacto negativo muito grande em nossas vidas. PARABÉNS!!!
Wanderson:
Muito bem observado Cerbasi.
O triste é saber que as mudanças que o nosso paÃs precisa são iguais aos nossos transportes coletivos, nunca vêm ou demoram muito pra chegar e QUANDO chegam deixam a desejar.
Maria Carmen de Paiva:
Seria chover no molhado elogiar mais esse artigo da sua autoria, como os seus livros. Sempre que leio sobre o que acontece no nosso paÃs e que nós ¨povão¨ sentimos na pele no dia a dia, fico pensando no que poderÃamos fazer de concreto, para que tudo, ou quase tudo (o que já seria ótimo) começasse a acontecer por aqui. Até que sabemos não é mesmo?! Quando começaremos a tomar atitudes? Eis a questão. Quero ler também sobre isso, e muuuuiiiiitttttoooo, e mãos à obra. Fique bem.
Wildson Bezerra:
Ótimo artigo. Só não acredito que o custo diminuiria com a extinsão de certas profissões como as citadas no artigo.
Samir Tomazoni:
Parabéns pela matéria Cerbasi, vc conseguiu mostrar a realidade do nosso pais em alguns parágrafos.
Evaldo:
Cerbasi, coloque link direto para o twitter, facebook e google+.
desta forma, podemos espalhar o texto preservando a fonte e incentivando novos leitores.

