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Sucesso no mercado que empobrece?
Publicado em: - 24-11-2006
Muitos de nossos ícones de sucesso empresarial construíram seu império atendendo a consumidores mal informados ou em dificuldades. Nossas maiores redes de varejo são aquelas que vendem para clientes que não sabem quanto custam seus produtos – sabem apenas o valor das parcelas no carnê. Nossos maiores bancos são aqueles que atendem à grande massa de pessoas que “investem” em cadernetas de poupança e usam o limite do cheque especial como uma extensão da renda, criando spreads bancários astronômicos.
Tais empresas não podem ser consideradas vilãs de uma economia que resiste a enriquecer. São negócios oportunistas – no melhor sentido da palavra – que atendem a um mercado que insiste em empobrecer. Nosso grande vilão é a falta de conhecimento, a falta de educação sobre coisas básicas como saber lidar com dinheiro e economia doméstica. As empresas apenas aproveitam o espaço deixado pelo maravilhoso conceito econômico de demanda. Deveriam fazer diferente?
O Brasil de hoje possui uma classe média claramente dividida. Temos a classe média que empobrece, aquela que trabalha mês após mês pura e simplesmente para pagar suas contas recheadas de juros das prestações que assume. Como consome mais do que deveria, uma parte significativa de seus gastos concentra-se em juros pagos ao varejo e aos bancos. Mas temos também a classe média que enriquece, aquela que descobriu que a terrível realidade dos juros mais altos do mundo é terreno fértil para a rápida multiplicação de sua poupança. Sabe gastar menos do que ganha e investir bem sua diferença, visando colher os gordos frutos futuros de uma aposentadoria mais tranqüila.
A classe média que empobrece ainda é e será por muito tempo a maioria. É vítima de um modelo educacional deficiente que insiste em ensinar polinômios de quarto grau a quem não sabe lidar sequer com conceitos básicos da economia, como juros, inflação e dívidas. Na madura economia brasileira, cuja inflação controlada dissipou a fumaça que nos impedia de enxergar adiante, aqueles que buscaram informação – fora dos bancos escolares, obviamente – descobriram que as condições de formação de poupança por aqui são únicas no mundo.
O tema finanças pessoais vem ganhando destaque entre os livros de negócios e em jornais e revistas. Sítios de busca por menores preços são coqueluches na Internet. O perigo do uso do cheque especial e do pagamento parcelado do cartão de crédito é intensamente alardeado pela mídia. O varejo das compras parceladas é evitado por uma pequena, mas crescente, parcela da classe média. Bancos que possuem financeiras criam marcas e logos bastante distintos de sua bandeira, cientes do anti-marketing da associação de seu nome com instituições puramente oportunistas – no pior sentido da palavra. O segmento bancário que oferece atendimento diferenciado cresceu intensamente na última década, desde que o Itaú criou o Personnalité ao comprar o BFB, chegando a ícones do varejo bancário popular, como o Bradesco e o Banco do Brasil, com seus respectivos Prime e Estilo. O sistema financeiro cedeu, enfim, à classe média que enriquece.
Essa parcela da classe média é um público que está aprendendo a investir em ações, não apenas a especular com elas. Que sabe que investir em imóveis é algo bem diferente de simplesmente possuí-los ou alugá-los a terceiros. Que entende que a escolha de fundos de investimento e planos de previdência deve ser baseada tanto nas taxas cobradas quanto no risco oferecido – e às vezes desejado. Que o gerente de sua corrente não é um consultor financeiro, mas sim alguém que lida conflituosamente entre o trabalho para o banco e o serviço para o cliente. E que aposentadoria está muito mais relacionada a sua independência financeira do que com o tempo de trabalho.
O fato é: esta ainda pequena parcela da sociedade que enriquece é aquela que, no futuro, estará consumindo muito mais e melhor do que hoje. Enquanto a sociedade que empobrece continuar endividando-se por meses após realizar seus sonhos de consumo de Natal, varejistas terão que continuar envidando esforços hercúleos para conquistar novos mercados. Contarão sempre com a limitação do baixo poder aquisitivo médio de seu pobre consumidor. Porém, se esforços forem feitos para multiplicar a cultura do bom uso do dinheiro e enriquecimento da sociedade, a perda de margem ou de spread no curto prazo significará intenso aumento de volumes no médio prazo. Não haverá perdedores quando a sociedade realmente assumir o importante papel de ensinar sobre dinheiro. Por outro lado, aqueles que focarem sua mira apenas nos que empobrecem, poderão perder o bonde do crescimento, arrependendo-se depois.
Gustavo Cerbasi é consultor financeiro e professor da Fundação Instituto de Administração, sócio-diretor da Cerbasi & Associados Planejamento Financeiro e autor dos livros Dinheiro – Os segredos de quem tem e Casais Inteligentes Enriquecem Juntos, ambos pela Editora Gente.
2 depoimentos!!
Cassia:
Sou uma típica representante da classe média que empobreceu e perdeu todo seu patrimômio, nos últimos 12 anos.
Sinto-me vilipendiada, usurpada e roubada pela canalha financeira que reina no país.
Devo a cartões de crédito que me cobram mais de 550% ao ano. Os bancos onde recebo bloqueiam minha aposentadoria, debitam quanto querem, fazem até empréstimos retroativos em minha conta sem minha anuência, e tenho que pagar, pois são debitados automaticamente.
Não tenho dinheiro para contratar advogado e não sei mais o que fazer.
S O C O R R O !!!
Cassia, você deve conversar com advogados, sem dúvida alguma. E também deve prestar mais atenção aos contratos que assina, pois, sinceramente, não acredito que você tenha sido enganada. Para corrigir sua situação, você deverá refazer todo seu planejamento de vida, sair da zona de conforto e adotar um novo padrão de consumo, mais baixo do que o atual. Você está endividada porque gastou muito mais do que ganhou. Boa sorte!

