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A arte do desapego

Publicado em: 13-02-2010

Depois de meu último post, recebi dezenas de textos, alguns anônimos e outros não, cuja proposta é nos trazer uma lição de vida relacionada à riqueza. Gostei muito do texto seguinte, que traz uma interessante definição de riqueza.

Vende-se Tudo
Por Martha Medeiros

No mural do colégio da minha filha encontrei um cartaz escrito por uma mãe, avisando que estava vendendo tudo o que ela tinha em casa, pois a família voltaria a morar nos Estados Unidos. O cartaz dava o endereço do bazar e o horário de atendimento. Uma outra mãe, ao meu lado, comentou:

- Que coisa triste ter que vender tudo que se tem.
- Não é não, respondi, já passei por isso e é uma lição de vida.

Morei uma época no Chile e, na hora de voltar ao Brasil, trouxe comigo apenas umas poucas gravuras, uns livros e uns tapetes. O resto vendi tudo, e por tudo entenda-se: fogão, camas, louça, liquidificador, sala de jantar, aparelho de som, tudo o que compõe uma casa.

Como eu não conhecia muita gente na cidade, meu marido anunciou o bazar no seu local de trabalho e esperamos sentados que alguém aparecesse. Sentados no chão. O sofá foi o primeiro que se foi. Às vezes o interfone tocava às 11 da noite e era alguém que tinha ouvido comentar que ali estava se vendendo uma estante. Eu convidava pra subir e em dez minutos negociávamos um belo desconto. Além disso, eu sempre dava um abridor de vinho ou um saleiro de brinde, e lá se iam meus móveis e minhas bugigangas.

Um troço maluco: estranhos entravam na minha casa e desfalcavam o meu lar, que a cada dia ficava mais nu. No penúltimo dia, ficamos só com o colchão no chão, a geladeira e a tevê. No último, só com o colchão, que o zelador comprou e, compreensivo, topou esperar a gente ir embora antes de buscar. Ganhou de brinde os travesseiros.

Guardo esses últimos dias no Chile como o momento da minha vida em que aprendi a irrelevância de quase tudo o que é material. Nunca mais me apeguei a nada que não tivesse valor afetivo. Deixei de lado o zelo excessivo por coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar. Hoje me desfaço com facilidade de objetos, enquanto que torna-se cada vez mais difícil me afastar de pessoas que são ou foram importantes, não importa o tempo que estiveram presentes na minha vida…

Desejo para essa mulher que está vendendo suas coisas para voltar aos Estados Unidos a mesma emoção que tive na minha última noite no Chile. Dormimos no mesmo colchão, eu, meu marido e minha filha, que na época tinha 2 anos de idade. As roupas já estavam guardadas nas malas. Fazia muito frio. Ao acordarmos, uma vizinha simpática nos ofereceu o café da manhã, já que não tínhamos nem uma xícara em casa.
Fomos embora carregando apenas o que havíamos vivido, levando as emoções todas: nenhuma recordação foi vendida ou entregue como brinde. Não pagamos excesso de bagagem e chegamos aqui com outro tipo de leveza….só possuímos na vida o que dela pudermos levar ao partir, é melhor refletir e começar a trabalhar o DESAPEGO JÁ!

Não são as coisas que possuímos ou compramos que representam riqueza ou plenitude. São as dádivas especiais que não tem preço, como família, amigos e saúde.

14 comentários!!

» sábado 13 fevereiro 2010 14:27 | permalink

Edméa comentou:

Já passei por essa experiência quando sai de minha cidade natal, Sete Lagoas, e vim para Brasília. Eu e meus filhos aprendemos e crescemos muito com essa rica experiência.
Só recebemos o “novo” quando abrimos mão do que é velho em nossa vida.
Desapegar é dar permissão pro novo.

» sábado 13 fevereiro 2010 23:54 | permalink

Alessandra Milanez comentou:

Morei um tempo em Brasília. Quando cheguei lá, comprei um colchonete e um mini-aparelho de som, para ter pelo menos a companhia do rádio quando chegasse em casa, já que eu não tinha família nem amigos naquele lugar. A partir daí fui comprando as coisas aos poucos e, quando voltei a SP, me desfiz de tudo novamente, a não ser de algumas poucas coisas que deixei na casa de uma amiga. Passado algum tempo, mais ou menos um ano, voltei à casa dela para mandar despachar aquelas coisas. Percebi que nada daquilo que tinha ficado - e que na época pareciam tão importantes - tinha feito a menor diferença na minha vida. Acabei doando ou vendendo as coisas que estavam lá e apenas aproveitando o tempo com os amigos que tinha feito.
De fato, as coisas, do ponto de vista material, não fazem a menor diferença. O único problema é que essas mudanças e esse processo de se desfazer de tudo têm um custo financeiro meio alto, dado que vc vai ter que começar tudo de novo do zero.

» domingo 14 fevereiro 2010 0:37 | permalink

Robson comentou:

muito bem escrito. Tenho claro que riqueza material é superlativa. Nunca pensei em sair do meu pais, estudei muito para conseguir ser empresario, e nao teria a mesma coragem deles. Nem de ir, com esposa e filhos. Ficaria triste se tivesse que me desfazer do meu playstation 3..

» domingo 14 fevereiro 2010 21:50 | permalink

Marcelo Leonardo Bitter comentou:

Que texto sensacional. E eu achava que tinha desapego. Bela lição de vida. Parabéns e agradeço a maravilhosa contribuição.

» domingo 14 fevereiro 2010 21:54 | permalink

luciana comentou:

Martha Medeiros é e será sempre Martha Medeiros, para mim, a melhor escritora do país nestes tempos!

» segunda-feira 15 fevereiro 2010 3:59 | permalink

keren comentou:

Acho que todos deveriam passar por este tipo de situação, ja passei por isso e concordo em grau, numero e genero tudo que esta escrito no texto acima. Pois a maior riqueza que temos nao tem preço que possa possa ser vendido……

» quarta-feira 17 fevereiro 2010 11:23 | permalink

Joao Paulo Machado comentou:

Otima escrita… de contribuição sensacional para quem realmente ainda é apegado as coisas materias. “coisas que foram feitas apenas para se usar, e não para se amar.”

» segunda-feira 22 fevereiro 2010 9:01 | permalink

sandra comentou:

Interessante essa maneira de encarar a vida e algumas coisas que um dia consideramos como conquistas.
Apegar-se é mesmo o maior risco das riquezas. Esquecermos das pessoas e de nós mesmos no caminho é que deve ser realmente uma perda.

» segunda-feira 22 fevereiro 2010 14:15 | permalink

vera lucia comentou:

Suoer interessante não passei por situação semelhante mais para mim desapego é muito além do aqui agora vai a outra dimensão viver intensamente cada minuto da vida,fazer sim realmente tudo que se gosta descobrir e se redescobrir a cada dia uma nova oportunidade e estar sempre preparado para quando ela surgir.
Como diz uma frase de Lair Ribeiro:
“Sorte é quando oportunidade encontra preparação”
Existem momentos em nossa vida que dá vontade de desistir de tudo, mais quando voce acredita em Deus e tem um potêncial a ser explorado voce consegue se superar e sair lá na frente passar para um novo ciclo.
Acredito que eu esteja saindo do ciclo da frustração, mais depois de ler Mais Tempo e Mais Dinheiro desejo pular para o ciclo da Prosperidade.Obrigado a Deus, obrigado Gustavo e obrigado Mundo por me oferecer tecnologias e oportunidades de escolhas tão grandiosas. Abraços.

» domingo 28 fevereiro 2010 14:42 | permalink

Aleri João Panazzolo comentou:

Este momento é magnífico,
Certos, que o próximo será muito melhor.

Sou Engenheiro Agrícola, elaboro, implanto e reestruturo projetos de produção integral de bovinos de corte no Rio Grande do Sul.
Tudo o que são bens materiais, se faz, compra e se desfaz.
A terra fica.
Mas, as pessoas são as razão de tudo.
São 18 anos de trabalho.
Assustos técnicos, são meios.
Econômicos, é começo e fim.
Pessoas é tudo.
A grande importância da Organização da Estrutura Pessoal num negócio,
o valor de cada um no seu lugar. É tiro perfeito no alvo do resultado.

Os comentários, anteriores à este, são muito adequados

Muito obrigado, por tudo e a todos,
principalmente a Deus que nos ilumina e nos permite
compartilhar de momentos emocionantes, agora e para sempre…..

» quinta-feira 3 junho 2010 23:13 | permalink

Renata Lopes comentou:

Impressionante!!! Se conseguimos exercitar o desapego com certeza prezaríamos muito mais as relações pessoais.

» quinta-feira 29 julho 2010 23:36 | permalink

Aline A. F. Goto comentou:

Gustavo, observar este texto que tu postaste, me faz “apenas” confirmar a conclusão que tive sobre você e seu trabalho e que fiz questão de expressar pessoalmente quando tive o prazer de participar do bate-papo (Livraria Catarinense) aqui em Balneário Camboriú. (27 de julho)
Aproveito a oportunidade para além de elogiar novamente seu trabalho e reconhecer que os valores que colocas são realmente importantes, o que repito, é pra mim o segredo de todo seu sucesso (humilidade e simplicidade), me DESCULPAR caso tenha havido algum incoveniente na ocasião em que lhe falei (fila para autógrafos).
Um abraço e desejo de mais e mais sucesso.
Aline

» quinta-feira 16 setembro 2010 16:32 | permalink

Daniel do Carmo comentou:

Tenho 31 anos, sou do interior de SP e aos 17 anos sai de casa para estudar em SP. Ao longo do tempo conquistei muitas coisas na vida. Um diploma, conhecimento, um bom emprego, experiência, bom salário e muitos bens. Hoje me vejo cansado, a fim de voltar às origens. Á epoca que fui office-boy para comprar peças e montar minha bike remendada. A época da simplicidade das coisas, principalmente as materiais e sentimentais. Mas que têm muito valor. Diria que inestimável! Hoje em dia vimos todos se “matando” por mais dinheiro, para ser o maior, o melhor, o mais rentável. Porque? Um dia isso acaba, pessoas se acabam por isso. Essa busca desenfreada pelo maior lucro, ser mais competitivo. Isso adoece as pessoas, além de causar um mal social imenso. Vamos pensar a respeito.

» quinta-feira 30 setembro 2010 14:31 | permalink

maisdinheiro comentou:

Daniel, trato disso em meu livro Cartas a um Jovem Investidor.

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